Scott Kellogg, Rodrigo Trapp, & Ana Rizzon

A representação de papéis pode ser feita como animais, espíritos, delírios ou alucinações, vozes, partes do corpo, ideias, visões, os que partiram….” – Zerka T. Moreno (2008, p. xi)

Uma Breve História do Trabalho com Cadeiras

A Terapia do Esquema tem duas importantes características distintas: (1) sua ênfase em conceitualizar e compreender os pacientes a partir de diferentes partes ou modos; e (2) o papel central das estratégias vivenciais – especificamente a reelaboração de imagens e o trabalho com cadeiras – em seu tratamento (Rafaeli, Bernstein, & Young, 2011; van der Wijngaart, 2021;Young, Klosko, & Weishaar, 2003). O que é então o trabalho com cadeiras? Em sua configuração mais básica, o trabalho com cadeiras assume duas formas. Na primeira, o paciente senta-se em uma cadeira, imagina alguém do seu passado, presente ou futuro na cadeira oposta e conversa com essa pessoa. Pode ser um avô falecido, um companheiro ou cônjuge, ou um filho ainda não nascido. Este diálogo é frequentemente utilizado quando há assuntos inacabados ou questões não resolvidas com outras pessoas (Perls, 1969). Na segunda, o paciente se move para diferentes cadeiras e dá voz a diferentes partes suas, permitindo que essas partes dialoguem entre si “com o amor, o desejo, o medo e a coragem muitas vezes emergindo como temas centrais” (Kellogg & Garcia Torres, 2021, pág. 172).

O trabalho com cadeiras é originalmente uma técnica do Psicodrama – forma experiencial de psicoterapia criada pelo Dr. Jacob Moreno (Moreno, 2019; Z. Moreno, 2012). Porém, o trabalho com cadeiras, tal como é praticado na Terapia do Esquema, está mais intimamente ligado ao trabalho do Dr. Frederich “Fritz” Perls, o criador da Gestalt-terapia (Perls, 1969, 1970, 1973; Perls, Hefferline, & Goodman, 1951). Começando no início da década de 1950 e continuando até o início da década de 1960, Fritz Perls era um participante regular das sessões abertas de psicodrama que Jacob Moreno realizava em seu instituto na cidade de Nova York (Moreno, 2012). Em suma, Perls aprendeu o trabalho com cadeiras com Moreno, mas depois adaptou-o aos seus próprios propósitos e filosofia terapêutica. Uma das grandes mudanças feitas por Pearls foi a de utilizar as cadeiras dentro de um contexto de terapia individual e não como parte da terapia em grupo.

No início da década de 1960, Perls foi para a Califórnia e começou a dar palestras sobre seu modelo de Gestalt-Terapia. Ele convidava voluntários para subir ao palco e fazia com eles o trabalho com cadeiras diante de uma plateia. Estas demonstrações tornaram-se extremamente atraentes e populares, uma parte essencial do que ele chamou de “circos” (Shepard, 1975). Com base nisso, ele passou a fazer do trabalho com cadeiras parte fundamental de seus workshops e treinamentos no Instituto Esalen e em diversos outros lugares (Anderson, 1983; Kellogg, 2014; Perls, 1969). Na época de sua morte, em 1970, Fritz Perls era mundialmente famoso e a Gestalt-terapia emergiu como uma forma importante de psicoterapia humanista-existencial. Isso se deveu, em grande parte, ao seu trabalho extraordinário com as cadeiras.

Após a sua morte, o trabalho com cadeiras foi adaptado e repensado por vários terapeutas de uma ampla variedade de escolas ou abordagens. Além da Terapia do Esquema (Young et al., 2003), também a Terapia de Redecisão (Goulding & Goulding, 1997), o Diálogo de Vozes (Stone & Stone, 1989), a Terapia Focada na Emoção (Greenburg, Rice, & Elliott, 1993), a Terapia Cognitivo-Comportamental (Goldfried, 2006), a Terapia Focada na Compaixão (Gilbert, 2011) e a Cadeira Transformacional (Kellogg, 2014).

Os Quatro Princípios e o Modelo dos Quatro Diálogos no Trabalho com Cadeiras

Em 2018, Kellogg descobriu os Quatro Diálogos, estruturas de diálogo que não apenas simplificaram dramaticamente a prática do trabalho com cadeiras, mas também tornaram possível, pela primeira vez, que o trabalho com cadeiras fosse um modelo de psicoterapia independente (Kellogg, 2018); Kellogg & Garcia Torres, 2021).

Existem quatro princípios que fundamentam a abordagem dos“Quatro Diálogos”. São eles:

  1. É clinicamente útil compreender que as pessoas contém diferentes partes, modos, vozes ou selfs.
  2. É curativo e transformador para as pessoas dar voz a essas diferentes
  3. Também é curativo e transformador para as pessoas reencenarem ou representarem cenas e situações do passado, do presente ou do futuro.
  4. O objetivo final do trabalho com cadeiras é o fortalecimento do Modo Adulto Saudável.

Os Quatro Diálogos, por sua vez, são (Kellogg & Garcia Torres, 2021) :

  1. Dando Voz”.
  2. Diálogos Internos”.
  3. Contando a História”.
  4. Relacionamentos e Encontros”.

O primeiro diálogo, “Dando Voz”, tem raízes profundas na Gestalt Terapia (Beisser, 1970) e no Diálogo de Vozes (Stone & Stone, 1989) e provavelmente é a estrutura de diálogo menos familiar para a maioria dos terapeutas. Começamos convidando o paciente à trocar de cadeira e dar voz ao seu coração e à sua dor (Kellogg, 2020):

Terapeuta: “Gostaria de convidá-lo a se sentar nesta cadeira e gostaria que você falasse a partir de seu coração, a partir da sua dor. Quero que você sente aqui e seja essa dor por um momento” .

É uma abordagem que pode ser utilizada quando o paciente diz coisas como: “Há uma dor profunda dentro de mim” ou “Há uma parte de mim que quer se cortar assim que sair da sessão”. No primeiro caso, pedimos ao paciente que troque de cadeira, trate o seu sentimento como uma parte diferente (por exemplo, “a parte triste”) e tente aprofundar a sua conexão com essa parte. Permanecer conectado, vivenciar, expressar e amplificar uma emoção – especialmente uma emoção difícil – pode ser curativo (Beisser, 1970). Essa estrutura também pode servir para descobrir as situações, histórias ou partes que estão no cerne da experiência de sofrimento. No segundo exemplo, o terapeuta pode entrevistar a parte que quer se cortar para compreender melhor sua história, propósito e função na vida do paciente – tanto no passado quanto no presente. Aqui, a compreensão é o objetivo; a parte não é contestada e não há nenhuma tentativa de alterá-la ou corrigi-la.

O segundo diálogo, “Diálogos Internos”, está relacionado a encontros entre diferentes partes do self. Por exemplo, o terapeuta sugere para o paciente: “Você parece ter dúvidas sobre iniciar ou não esse novo projeto. Vamos fazer um exercício? Vou pedir para você mudar para esta outra cadeira aqui. Enquanto estiver nela, peço que seja a parte que deseja avançar com o projeto e fale a partir dela. Depois, troque para esta outra cadeira e seja a parte que está tendo dúvidas.” (Kellogg, 2020, p. 1).

“Contando a História”, por sua vez, engloba a vivência de traumas e lembranças difíceis. O terapeuta sugere: “Sinto que guardar esse segredo por tanto tempo tem sido um fardo terrível para você. Se você estiver disposto, gostaria que se sentasse nesta outra cadeira aqui e me contasse a história do que aconteceu” (Kellogg, 2020, p. 1).

Por fim, “Relacionamentos e Encontros” envolve as relações interpessoais. Este diálogo pode envolver duas ou mais cadeiras.

Terapeuta: “Posso sentir que vocês ainda estão muito presos um ao outro – embora o relacionamento tenha terminado há dois anos. Eu gostaria de sugerir que trabalhássemos com isso. O que acha? Gostaria que você a imaginasse sentada nesta cadeira e que conversasse com ela, contando o que está sentindo” (Kellogg, 2020, p. 1).

A Relação Terapêutica e a Reparentalização Limitada

O trabalho com cadeiras, assim como outros métodos vivenciais, é conduzido dentro do contexto de um forte vínculo terapêutico. Na Terapia do Esquema, uma parte desse vínculo assume uma forma particularmente intensa, conhecida como Reparentalização Limitada. Na reparentalização limitada, o terapeuta proporciona as experiências emocionais que um “bom cuidador” normalmente proporcionaria a uma criança em sofrimento, dentro dos limites éticos da prática clínica padrão (Rafaeli et al., 2011; Young et al., 2003). No trabalho com cadeiras isso ocorre com o terapeuta confrontando as forças negativas internalizadas pelo paciente, proporcionando compaixão pela criança vulnerável e modelando e reafirmando a força e o poder crescentes do adulto saudável. Envolve também o uso de “técnicas de aprofundamento”, que consistem em: (1) utilizar uma linguagem de empoderamento; (2) usar a repetição para aumentar a intensidade emocional e o poder do que está sendo dito; e (3) usar alternâncias de volume para amplificar os componentes dramáticos da experiência (Kellogg, 2014).

Através deste processo, a reparentalização limitada proporciona ao paciente experiências e emoções positivas – não apenas de se sentirem acolhidos, seguros e protegidos, mas também sentimentos de competência e alegria (Fassbinder & Arntz, 2019). Através da relação terapêutica, o paciente irá, com o tempo, internalizar as atitudes afetivas e carinhosas do terapeuta, incorporando-as ao seu próprio adulto saudável. Isto irá permitir-lhe:

(a) tornar-se cada vez mais compassivo e protetor consigo próprio; (b) desenvolver habilidades para aceitar a ativação de emoções intensas; (c) substituir comportamentos prejudiciais por outros mais adaptativos; e (d) desenvolver recursos para lidar com situações estressantes ou problemáticas de forma saudável. Em suma, o paciente irá experienciar, aceitar e integrar o terapeuta como uma figura de apego estável e segura (Finogenow, 2021).

Terapia do Esquema e os Oito Diálogos do Trabalho com Cadeiras

Conforme observado acima, a Terapia do Esquema é uma terapia experiencial e o trabalho com cadeiras passou a desempenhar um papel cada vez mais central no processo terapêutico (Flanagan, Atkinson, & Young, 2020; Heath & Startup, 2020; van der Wijngaart, 2021). Existem oito diálogos que podem ser vistos como a base essencial do trabalho com cadeiras em Terapia do Esquema. São eles: (1) Diálogos de Evidências; (2) Entrevista com os Modos; (3) Análise de Custo-Benefício; (4) Diálogos de Modos; (5) Trabalho com Cadeiras Centrado no Trauma: Contando Histórias em Terceira Pessoa; (6) Trabalho com Cadeiras Centrado no Trauma: Diálogos de Confrontação; (7) Auto-Diálogos Relacionais; e (8) Superando o Impasse Terapêutico.

Diálogos Rômbicos

Com base no trabalho de Oliveira (2016), esquemas e modos podem ser compreendidos a partir de uma estrutura dialógica. Isso significa que, ao invés de ver um esquema como uma crença, o terapeuta e o paciente podem visualizá-lo como uma pessoa ou uma parte argumentando, afirmando ou defendendo uma determinada perspectiva sobre a natureza do paciente, do mundo e/ou regras corretas para viver.

Essa reformulação permite ao terapeuta do esquema trabalhar com os esquemas e modos de maneira semelhante: o adulto saudável pode agora dirigir-se e relacionar-se diretamente com a parte que engloba o esquema (ver também Roediger, 2018). O Diálogo Rômbico é uma estrutura de diálogo utilizando quatro cadeiras que simplifica uma forma complexa e emocionalmente intensa de confrontar esquemas e modos desadaptativos (Chesner, 2019; Kellogg, outubro de 2019, 2022; Pugh, 2019).

Diálogo 1 – Diálogos de Evidências

Em uma intervenção clássica da Terapia do Esquema, o paciente e o terapeuta primeiro identificam os esquemas subjacentes e depois procuram as evidências atuais, biográficas e históricas que apoiem ou contestem a validade do esquema (Rafaeli et al., 2011). O caso de Shari (Young et al., 2003), pode ser usado para exemplificar um diálogo de evidências.

Shari, uma enfermeira psiquiátrica, tinha um grave esquema de defectividade. Trabalhando com a terapeuta, ela não só foi capaz de esclarecer as evidências atuais e históricas que apoiavam o esquema, mas também foi capaz de encontrar evidências para contestar e, talvez, refutá-lo. As evidências que apoiavam o esquema incluíam: “Ninguém nunca me amou ou cuidou de mim quando eu era criança”; “Sou estranha, esquisita, obsessiva e medrosa;” e “Sinto muita raiva aqui dentro” (Young et al, 2003, p. 95). As evidências que se opunham ao esquema eram: “Meu marido e meus filhos me amam”; “Meus pacientes gostam de mim e me respeitam”; “Me importo com os sentimentos das outras pessoas”; “Tento sempre ser boa e fazer a coisa certa”; “Quando fico com raiva, é por um bom motivo” (Young et al., 2003, p. 96).

Usando a estrutura de Diálogo Rômbico, Shari parte de um ponto central, ou seja, na cadeira do Adulto Saudável. A dois metros de distância, bem à sua frente, está posicionada a cadeira do esquema – uma personificação da crença de que ela é defeituosa e indigna de ser amada. A 45 graus para a direita e para a esquerda, a cerca de um metro de distância, estão duas cadeiras, as cadeiras de evidências, que ficam de frente uma para a outra e perpendiculares ao eixo da cadeira do Adulto Saudável e do esquema de defectividade. Uma dessas cadeiras irá representar a evidência que apoia o esquema e a outra a evidência de que o esquema é falso e de que ela não é, de fato, defectiva e indigna de ser amada.

Para começar, Shari é convidada a ocupar a cadeira de Adulto Saudável. O terapeuta sugere que a paciente inicie com uma afirmação de ancoragem: “Eu sou Shari, sou o Adulto Saudável e esta é a minha vida!”. Isso pode ser repetido algumas vezes para fortalecer a conexão e dar mais autoridade ao modo. Usando a inversão de papéis (Dayton, 2023; Moreno, 2019), Shari então passa para a cadeira do esquema e “se torna” o esquema. Falando dessa perspectiva ela poderia dizer algo como: “Shari – você é estragada, você é esquisita, estranha, você é diferente. Ninguém jamais aceitará você. Você é tão diferente que é indigna de ser amada em sua essência. Você deve desistir e não ter qualquer esperança de que as pessoas gostem de você ou aceitem você”. Quanto maior a intensidade da conexão emocional enquanto fala a partir da cadeira do esquema, melhor.

Solicita-se então que ela volte para a cadeira do adulto saudável por um instante para absorver e refletir as mensagens do esquema. Shari então escolhe uma das duas cadeiras de evidências – a favor ou contra o esquema – e fala a partir da perspectiva escolhida. Na cadeira que contesta o esquema ela pode dizer algo como: “O que ela está dizendo é falso e exagerado. Sou um pouco estranha, claro, mas minha família me ama. Faço um bom trabalho com meus pacientes e eles são gratos por eu estar em suas vidas. Sou sensível aos sentimentos dos outros e me esforço para ser uma pessoa boa e atenciosa. Embora seja verdade que não recebi muito amor enquanto crescia, isso acontecia porque as pessoas ao meu redor tinham sérios problemas. Não foi por minha causa. À medida que vivo minha vida, vejo evidências em todos os lugares de que sou amável.”

Shari então troca de cadeira e assume a perspectiva de apoio ao esquema: “Acho que ela está certa. Eu não fui amada quando era criança – deve ter algo errado comigo. Me sinto sempre tão ansiosa. Nada é fácil para mim. Nada é fácil para mim! Não sou espontânea quando estou com outras pessoas e estou sempre duvidando de mim mesma.” Shari alterna entre as duas cadeiras das evidências, defendendo cada perspectiva da forma mais intensa possível. Alternar por quatro ou cinco vezes pode ser suficiente no início.

Novamente, recorrendo ao trabalho de Oliveira (2016), poderíamos transformar as duas cadeiras de evidências em um Promotor de Justiça, que argumenta a favor do esquema (“Acho que o esquema está certo – ela é defeituosa mesmo”) e um Advogado de Defesa, que argumenta contra o esquema e que defende Shari (“Isso não faz nenhum sentido. Quando olhamos para a vida dela, podemos ver claramente que as pessoas gostam dela, cuidam dela e a apreciam”). Surpreendentemente, esta abordagem em terceira pessoa, em que os advogados discutem sobre as provas, pode ser mais fácil para o paciente, pois o distancia da natureza dolorosa do esquema (Kellogg, 2014; van der Wijngaart, 2021).

Depois disso, com a orientação do terapeuta, Shari pode começar a se movimentar com mais liberdade entre as quatro cadeiras. Pode, por exemplo, voltar para a cadeira do adulto saudável e desafiar o esquema, retornar aos dois advogados e se envolver na disputa, voltar à cadeira do esquema e dar voz a ele mais uma vez e então finalizar assumindo mais uma vez a cadeira do adulto saudável. Toda essa movimentação ajuda a diminuir o poder de influência do esquema. Novamente o terapeuta pode usar as técnicas de aprofundamento, sugerindo algumas falas ou fornecendo ao paciente uma linguagem específica para falar a partir dessas diferentes perspectivas. Ao final, Shari, novamente na cadeira do Adulto Saudável, reflete sobre o que ela acredita em relação à validade do esquema. Entre as diferentes conclusões a que ela pode chegar estão:

O esquema era verdadeiro para ela no passado, mas não é mais

  1. O esquema nunca foi verdadeiro; ela interpretou mal as coisas com base no que outras pessoas lhe disseram. Quando ela olhou para as evidências, elas simplesmente não se sustentaram.
  2. O esquema é A partir da compreensão de que todas as pessoas têm fraquezas, ela pode processar o luto e aceitar sua estranheza com compaixão e procurar desenvolver ainda mais seus pontos fortes.
  1. Reconhece que pode haver alguma verdade no esquema e então decide fazer um esforço consciente para desafiar as origens infantis do esquema e aprender maneiras novas e mais eficazes de trabalhar com o esquema (Kellogg, 2022, 6).

O Modelo de Modos em Terapia do Esquema – Uma Visão Geral

Com o passar do tempo, o trabalho com o modelo de modos, que está diretamente ligada ao princípio central da multiplicidade do self (Rowan, 2010), tornou-se dominante na Terapia do Esquema. O mundo interno das pessoas em sofrimento é frequentemente ocupado por uma combinação diversificada de modos (Kellogg & Garcia Torres, 2021), que podem incluir:

Modos compostos de dor, medo e trauma;

Modos frustrados, que ficam com raiva e podem agir impulsivamente;

Modos que são críticos e punitivos com o self;

Modos que lidam com a dor e o medo, desconectando-se ou hipercompensando com comportamentos grandiosos ou agressivos; e O modo adulto saudável que estabiliza o sistema para um funcionamento adaptativo no mundo (Kellogg & Young, 2006).

Embora cada modo possa desempenhar um papel importante e útil em um sistema saudável, eles também podem ser bastante problemáticos quando há um desequilíbrio, especialmente quando o adulto saudável está subdesenvolvido ou muito frágil (Kellogg & Garcia Torres, 2021). Trabalhar com as cadeiras ajuda a diferenciar os modos e a organizá-los em um sistema dinâmico de funcionamento superior (Finogenow, 2021). Kellogg & Garcia Torres (2021) enfatizam que desenvolver o adulto saudável é o objetivo final do trabalho com cadeiras, assim como é também um objetivo central da Terapia do Esquema (Lobbestael, 2008). Isso ocorre porque um adulto forte e saudável trará equilíbrio emocional a todo o sistema, a partir de algumas tarefas:

Cuidar e curar a dor dos modos que sofrem;

Encontrar formas socialmente aceitáveis de expressar as necessidades e desejos dos modos raivosos e impulsivos;

Conter a influência prejudicial ou destrutiva dos modos críticos internos; e

Diminuir o uso problemático de modos de

Diálogo 2 – Entrevista com os Modos

Os modos de enfrentamento geralmente desempenham um papel complexo na vida do paciente, sendo responsáveis por diversos sintomas e problemas na vida adulta. Em um primeiro momento é importante entrevistá-los para compreender melhor seu papel e função. Quando utilizado para fins de avaliação, o objetivo da entrevista com o modo é compreender melhor suas origens de desenvolvimento (“De onde você vem?”), sua intenção (“Qual é o seu papel na vida do paciente?”), seus gatilhos (“Quando você aparece?”) e suas motivações (“Quais são seus medos? O que irá acontecer caso você não possa desempenhar esse papel?”). Entrevistar o modo oferece uma oportunidade de compreender melhor sua etiologia e função (Kellogg, 2014; Kellogg & Garcia Torres, 2021). Esses diálogos também podem impulsionar o trabalho de imagens mentais subsequente (Pugh & Rae, 2019).

Usando uma estrutura de diálogo “Dando Voz”, Arntz e Jacob (2013) apresentaram o caso de Sabine – uma paciente que relatou ter um ‘muro` dentro de si. Pediram-lhe que trocasse de cadeira e “se tornasse” esse muro. Quando a entrevistaram, o muro disse: “Desde que entrei na vida de Sabine, ela tem tido a capacidade de se desligar. Eu ajudo a mantê-la segura”. Quando o terapeuta explorou melhor a história do muro e os motivos pelos quais ele entrou na vida de Sabine, o muro respondeu que entrou em sua vida porque seu pai ficava agressivo e a ameaçava. Então, ele desligou e desconectou Sabine de tudo, para que ela pudesse sobreviver. Mais tarde, seus colegas foram muito cruéis com ela, então ele continuou a desligar seus sentimentos. Quando o terapeuta afirmou o quanto o papel do muro tinha sido central para a sobrevivência de Sabine, o muro concordou com essa avaliação (Kellogg & Garcia Torres, 2021, p. 173). Neste exemplo, eles foram capazes de compreender melhor o surgimento, o desenvolvimento e o papel do Protetor Desligado.

Diálogo 3 – Análise de custo-benefício

Os modos de enfrentamento se desenvolvem para ajudar o indivíduo a sobreviver a situações difíceis quando criança e adolescente. Com pacientes adultos, o desafio é que estes modos, que antes eram adaptativos, tornaram-se agora anacrônicos; menos adaptativos ou mesmo problemáticos no ambiente em que o paciente vive atualmente. Depois de um diálogo dentro da estrutura “Dando Voz” com um modo de enfrentamento (a “Entrevista ao Modo”), um Diálogo de Análise de Custo-Benefício pode ser útil como meio de avaliar a utilidade atual do modo em questão na vida do paciente (Burns, 2006). O Diálogo Rômbico é, novamente, o formato ideal.

Arntz e Jacob (2013) descreveram uma paciente chamada Nicole que utilizou seu modo Provocativo e Ataque de maneira problemática. O Provocativo e Ataque é um modo de hipercompensação que se baseia na ideia de que o ataque é a melhor defesa. Um diálogo de Análise de Custo-Benefício pode ser utilizado para explorar a dinâmica deste modo no momento atual. O terapeuta primeiro questiona Nicole para compreender os custos (desvantagens) e benefícios (vantagens) atuais, ou seja, os pontos positivos e negativos do provocativo e ataque em sua vida atual. Para Nicole, os benefícios são: “Os outros me respeitam, pois têm medo de mim” e “posso garantir que ninguém vai abusar de mim ou me machucar”. Eles então explorariam as desvantagens, que incluem: “Os outros têm medo de mim e é por isso que eles não gostam de mim” e “continuo tendo problemas com a lei, tenho problemas com a polícia” (p. 123). Aqui, as ameaças à sua liberdade tornam-se fundamentais. Montando o seeting com as quatro cadeiras, Nicole inicia a técnica no modo adulto saudável com a afirmação: “Eu sou a Nicole. Eu sou o adulto saudável e esta é a minha vida. Eu tenho partes diferentes. Essas partes têm suas histórias. Essas partes têm suas funções. Essas partes são importantes. No entanto, eu sou o adulto saudável e essa é a minha vida, não é a vida deles.” Ela então faz uma inversão de papéis e se move para a cadeira oposta, tornando-se o modo provocativo e ataque e dando voz à sua perspectiva: “Eu estou aqui para mantê-la segura. Acredito que o ataque é a melhor defesa, por isso quero atacar os outros antes que eles me ataquem.”

A partir da estrutura rômbica, nas duas cadeiras do meio, Nicole dá voz aos aspectos positivos e negativos, aos custos e benefícios do modo em sua vida. Mais uma vez, Nicole pode dar voz a eles como sendo ela mesma ou assumir o papel de dois advogados discutindo as diferentes perspectivas: “Acho que Nicole deveria deixar o modo continuar fazendo o que está fazendo. Isso a manteve segura por tantos anos – por que mudar agora?”, “Ela está mais velha agora e sua vida está mudando. Ela está mais forte e não precisa ser tão agressiva; não é como nos velhos tempos. Além disso, as pessoas não gostam desse lado dela. Ela será solitária para sempre se continuar assim. E pode até acabar na prisão”. Depois de várias rodadas, ela pode mover-se livremente entre as quatro cadeiras, dando voz a todas as diferentes perspectivas. Ao final, Nicole volta ao centro e ao adulto saudável para refletir sobre o que ouviu nas duas cadeiras do meio. O objetivo é construir uma nova relação entre o adulto saudável e o modo de enfrentamento. Essa mudança é importante, pois o seu sistema de defesa precisa ser menos automático e estar mais sob o controle do adulto saudável. Esta nova forma de agir provavelmente exigirá prática e negociações contínuas. O diálogo de Análise de Custo-Benefício é focado na exploração da utilidade do modo (ver também van der Wijngaart, 2021).

Diálogo 4 – Diálogos entre Modos

Essas duas estruturas de diálogo – Entrevista com os Modos, a partir dos Diálogos Rômbicos – podem servir de base para uma série de diálogos de modos entre o adulto saudável, os modos criança, os modos de enfrentamento e o crítico interno. Novamente, o objetivo é que o paciente tenha uma experiência nas cadeiras na qual o adulto saudável seja fortalecido e ganhe força e controle crescentes sobre o sistema (Lobbestael, 2008). Isto ocorre a partir da escuta das preocupações do modo, respondendo de forma empoderada e criando uma nova relação com os modos que estão desequilibrados. Pode incluir: Ouvir a criança vulnerável, expressar profunda compaixão pelo seu sofrimento e comprometer-se a reduzir o sofrimento tanto quanto possível.

Reconhecer as preocupações e frustrações da criança zangada e impulsiva, ao mesmo tempo que afirma (a) que o adulto saudável irá encontrar formas de lidar através do uso de métodos assertivos e (b) que estes modos não devem agir de forma independente para satisfazer as suas necessidades.

Com os modos de enfrentamento, o adulto saudável pode primeiro agradecer-lhes por tudo o que fizeram para ajudá-lo a sobreviver e, então, apontar que o seu comportamento e suas estratégias – desconectar, evitar, autoaliviar-se ou autoestimular-se, buscar aprovação e atenção excessivas e/ou agredir os outros, são exagerados ou já não são apropriados e adaptativos. Como os modos de enfrentamento não desaparecem, o objetivo aqui é criar um novo relacionamento com eles.

Talvez o mais importante de todos seja o trabalho com o crítico interno, anteriormente chamadas de modos pais exigentes ou pais punitivos (Farrell & Shaw, 2018; Roediger, Stevens, & Brockman, 2018). O trabalho recente de Kellogg e Garcia Torres (2021) expandiu a compreensão da natureza do crítico interno na Terapia do Esquema.

Tradicionalmente, o crítico interno era compreendido como uma internalização de experiências duras, críticas e/ou abusivas na relação com outras pessoas significativas durante períodos cruciais de desenvolvimento na vida do paciente (Kellogg & Young, 2006; Young et al, 2003). Dado que o trabalho com modos em terapia do esquema tem a sua origem no tratamento de pacientes com transtorno de personalidade borderline, uma população com elevados níveis de trauma em sua história, esta perspectiva é coerente. Alguns pacientes relatam que podem ouvir ou sentir um pai ou outra figura abusiva em sua mente. A essa voz é dado o nome de “Crítico Abusador Internalizado”. Contudo, os Stones, no seu trabalho em “Diálogo de Vozes” (Stone & Stone, 1989), defendem que o crítico interno se desenvolve cedo na vida do indivíduo como uma parte que tenta manter a criança segura; nos termos da terapia do esquema, o crítico interno é na verdade um modo de enfrentamento. Esse modo é chamado de Crítico Protetor (ver também Behary & Brockman, 2023).

Com base nisso, é importante que o terapeuta do esquema use a estrutura de diálogo “Dando Voz” como uma entrevista diagnóstica diferencial para determinar se o crítico está cheio de ansiedade, buscando ajudar o paciente a melhorar ou se está cheio de ódio e desdém pelo paciente, buscando prejudicá-lo e destruí-lo. Isto é importante porque diferentes estratégias serão utilizadas dependendo da natureza do crítico interno.

Com o crítico protetor, o terapeuta começa estabelecendo um diálogo rômbico. O paciente inicia no centro, sendo o adulto saudável, com o crítico protetor na cadeira oposta. Novamente é importante iniciar a técnica com afirmações de ancoragem: “Eu sou o adulto saudável e esta é a minha vida!”. Desta vez as duas cadeiras laterais estarão direcionadas para o crítico protetor, falando diretamente com ele. Uma delas irá representar o apreço e a gratidão pelo que este crítico fez para ajudá-lo em sua vida (“Você me ajudou a me perseverar e a superar alguns momentos muito difíceis”). A outra cadeira irá representar a sensação de que este modo se tornou bastante problemático e desadaptativo (“Você causa estresse e ansiedade implacáveis; nunca há paz quando você está por perto. Acho que você está me impedindo de seguir em frente na minha vida”). Depois disso, o paciente pode movimentar-se entre as quatro cadeiras – incorporando e expressando seus diferentes pontos de vista a partir das diferentes perspectivas. Isso pode incluir uma inversão de papéis para que o crítico protetor possa defender diretamente sua tentativa de manter o paciente seguro.

Em seguida, o adulto saudável trabalha em conjunto com o terapeuta para identificar e afirmar seus valores, objetivos e desejos, utilizando-os em um diálogo com o crítico protetor. É digno de nota que, em alguns casos, seus valores podem estar alinhados com os do crítico protetor e em outros podem haver diferenças. O que é crucial é que o paciente possa viver uma vida baseada nos valores escolhidos por ele (Roediger et al., 2018) e não em “deveres” – mesmo que estejam enraizados em intenções benignas. O objetivo é criar uma nova relação em que o crítico protetor e o adulto saudável possam trabalhar juntos, formando uma equipe para ajudar o paciente a viver uma boa vida com base nesses valores. Importante atentar-se ao fato de que há pacientes que não desejam levar uma vida autodirigida e preferem que o crítico protetor continue a lhes dizer o que fazer. Isto faz com que permaneçam numa espécie de estado infantil – sendo informados sobre o que fazer por uma figura parental ansiosa, severa, punitiva ou mal-humorada; no entanto, esta é a escolha deles.

Por outro lado, se o modo identificado for o crítico abusador, o trabalho é iniciado com a necessidade de que o paciente compreenda e aceite a realidade de que essa voz crítica interna é tóxica e que seu propósito é machucá-lo. O trabalho pode ser feito diretamente após a entrevista ao modo. Ao ficar claro para o paciente de que se trata de um crítico abusador, o terapeuta pode confrontar esse crítico enquanto o paciente ainda está representando o modo. O terapeuta deve esforçar-se para conectar-se e ser o mais intenso possível, ao mesmo tempo em que defende consistentemente o paciente (van der Wijngaart, 2021). O paciente pode falar a partir do abusador internalizado e revidar. Esta pode ser uma experiência profundamente reorientadora para o paciente, pois provavelmente nunca vivenciou a experiência de ser defendido e protegido, com alguém atacando seu crítico abusador. No início, o paciente pode ficar muito assustado com o crítico abusador, acreditando nas coisas que o modo diz. Portanto, esse tipo de reparentalização e defesa por parte do terapeuta será de grande importância.

O próximo passo envolverá o confronto entre o adulto saudável e o crítico abusador. Utilizando novamente a estrutura de Diálogo Rômbico, em uma das cadeiras centralizadas, o paciente pode conversar com o crítico abusador sobre a dor, o medo e os danos que ele lhe causou e na outra cadeira, pode expressar sua raiva e a raiva sobre o impacto que as coisas que crítico abusador fez com ele causaram em sua vida. Voltando ao centro e ao adulto saudável, paciente e terapeuta podem então iniciar o processo de confronto e de rejeitar o crítico abusador, optando por viver uma vida baseada nos seus próprios valores. É provável que seja necessário que este diálogo seja repetido outras vezes. Ao longo deste processo, o terapeuta deve continuar a sugerir falas e fornecer apoio. Além disso, será importante que o paciente continue a identificar e a rotular a voz do crítico abusador, para que possa reconhecê-la sempre que surgir. As práticas de rotulagem, observação e distanciamento da terapia do esquema contextual (Roediger et al., 2018) podem ser muito úteis.

Além dos diálogos entre o adulto saudável com os outros modos, pode ser bastante útil ter diálogos dos diferentes modos entre si (Finogenow, 2021). Por exemplo, a criança vulnerável pode dialogar com algum modo de enfrentamento – ela pode interagir com o protetor auto-aliviador ou o protetor desligado, falando de sua infelicidade por nunca conseguir expressar a dor que sente, por exemplo (Pugh & Rae, 2019).

Diálogo 5 – Trabalho com Cadeiras Centrado no Trauma: Contando Histórias em Terceira Pessoa 

Os próximos dois diálogos foram desenvolvidos baseando-se no fato de que a terapia do esquema é, fundamentalmente, uma psicoterapia centrada no trauma. O primeiro deles é o “Contando Histórias em Terceira Pessoa” (Roediger et al., 2018), que encontra-se dentro da estrutura de diálogo “Contando Histórias”. O objetivo desta técnica é conectar-se e trabalhar com memórias difíceis ou traumáticas. Como é uma forma de trabalho experiencial, o paciente é convidado a trocar de cadeira e contar uma história ou memória difícil – falando o quanto quiser. Depois, ele é incentivado a se levantar, movimentar-se, sacudir os braços e as pernas e então sentar-se e contar a história novamente. O terapeuta e o paciente devem se esforçar para que isso se repita quatro ou cinco vezes, mas o paciente é que dá a palavra final em relação a quantas vezes sente-se confortável e disposto a repetir a história. Na formulação original (Kellogg, 2018), o paciente era convidado a fazer isso em primeira pessoa. Por exemplo, seria solicitado a um paciente chamado Harper que contasse a história ou memória de seu trauma a partir da perspectiva do “eu”: “Eu sofri um acidente de carro e estas são algumas das coisas que aconteceram comigo”. Adaptando a técnica a partir de uma ideia da terapia do esquema contextual, os pacientes são encorajados a usar a voz da terceira pessoa – pelo menos inicialmente. Isso significa que Harper iria trocar de cadeira para falar sobre si mesmo na terceira pessoa: “O Harper sofreu um acidente de carro e estas são algumas das coisas que aconteceram com ele”. A importância da utilização da terceira pessoa está em dar ao paciente certa distância do trauma, ao mesmo tempo que permite ativação emocional o suficiente para que seja terapeuticamente eficaz.

À medida que os pacientes vivenciam esta técnica, geralmente mais detalhes começam a surgir – um sinal de que o trauma está sendo integrado. Outro ponto positivo é que o terapeuta, ao longo do processo de testemunhar e trabalhar com as diferentes iterações da história do trauma, habitua-se à narrativa, sentindo-se mais confortável com ela e tem maior liberdade para trabalhar com o paciente.

Diálogo 6 – Trabalho com Cadeiras Centrado no Trauma: Diálogos de Confronto

Os Diálogos de Confronto são outra forma de trabalho com cadeiras que os terapeutas do esquema necessitam conhecer e dominar. O reprocessamento por imagens (Simpson & Arntz, 2020) é um método fundamental para identificar e reprocessar situações de maus-tratos, negligência e abusos interpessoais – especialmente aqueles que ocorrem na primeira infância. O trabalho com cadeiras pode auxiliar de duas formas:

(1) servindo para aprofundar e intensificar ainda mais os encontros que ocorreram no trabalho com imagens; e

(2) visto que alguns pacientes não querem fechar os olhos na presença do terapeuta, o trabalho com cadeiras pode ser um método alternativo para trabalhar esses traumas.

Utilizando a estrutura de diálogo “Relacionamentos e Encontros”, o terapeuta pode valer-se de um diálogo extraído do modelo de terapia de redecisão (Gouldings, 1997). O paciente troca de cadeira e visualiza o agressor ou abusador na cadeira oposta. Na primeira etapa, o paciente conta para essa pessoa que o machucou exatamente o que ela lhe fez. O objetivo é relatar o abuso/trauma com o máximo de detalhes possível. O segundo passo é dizer-lhe qual foi o impacto imediato disso: “Eu me senti sujo”, “Senti como se algo tivesse sido arrancado de mim”, “Tive que carregar o fardo de um segredo por toda a minha vida”, “Fiquei apavorado”. O terceiro passo é relatar o impacto do abuso a longo prazo: “Desde então, tenho estado cronicamente deprimido”, “Eu me corto todos os dias”, “Eu fico chapado o tempo todo”, “Eu não consigo confiar em ninguém”, “Não tenho autoestima.” As etapas finais são dedicadas ao empoderamento existencial (Kellogg, 2014). Envolvem a decisão do paciente de não viver mais na sombra do abuso e de reivindicar um novo modo de vida, que desafia e confronta claramente os maus-tratos e abusos sofridos. Os Gouldings (1997) dão exemplos de três mulheres que passaram por esse processo: “De agora em diante, vou encontrar pessoas de confiança e vou confiar nelas. Nem todo mundo é como você”, “Eu gosto de sexo hoje, apesar do que você fez comigo. Você não está mais na minha cama.”, “Posso rir, pular e dançar sem culpa, porque minha diversão não fez com que você me estuprasse! Foi a sua perversidade!” (pág. 248).

Diálogo 7 – Auto-Diálogos Relacionais 

Os diálogos também podem ocorrer com o próprio self do paciente (ou com diferentes partes do self) em diferentes momentos da vida. Ou seja, o paciente pode encontrar-se com ele próprio quando era criança, adolescente, adulto ou idoso. O paciente também pode falar com uma parte específica de si mesmo em diferentes pontos do ciclo de vida. Este modelo de auto-diálogo relacional é desenhado diretamente na linha do tempo de apego (2023) e na inversão de papéis do ciclo de vida (1994) de Dayton, e combina aspectos das estruturas de “Relacionamentos e Encontros” e “Diálogos Internos”. Essa técnica permite que o paciente trabalhe com experiências traumáticas vivenciadas a qualquer momento de sua vida – inclusive quando criança.

Trabalhando os maus-tratos que sofreu quando criança, o paciente começa no centro – no adulto saudável. Ele visualiza a sua criança sentada na cadeira em frente e expressa – para a criança – a raiva, a angústia e a tristeza que sente pelo que essa criança passou. Ele então inverte os papéis, troca de cadeira e “torna-se” essa criança. A criança é então convidada a falar a partir de sua experiência e perspectiva. A criança pode falar sobre o que passou e como se sente em relação a isso – na medida em que estiver disposta e se sentir capaz. O paciente pode alternar entre o “eu adulto” e o “eu infantil” quantas vezes achar importante. Em algum momento, o terapeuta pode começar a perguntar à criança se ela é capaz de ouvir o que o seu eu adulto está dizendo e se é capaz de absorver e internalizar isso. Se for, isso é bom; caso contrário, é importante perguntar-lhe porquê e esclarecer qual é o impedimento (Brouillette, 2023).

Existem duas estratégias a serem utilizadas. Primeiro, é importante enfatizar para a criança que ela está sendo vista, que sua história foi ouvida e que ela não está sozinha. Dizer a ela que tudo ficará bem não é uma boa ideia, pois pode não ser o caso e a criança pode não acreditar. Em segundo lugar, é importante que seja estabelecida uma ligação emocional com a criança. Isto pode incluir afirmações de afeto e orgulho em relação a ela, bem como a expressão da profunda angústia por parte do eu adulto quanto ao que a criança está vivendo. Isto pode ser bastante difícil para alguns pacientes, pois eles não gostam da criança abusada ou traumatizada que foram. Aqui, o terapeuta pode intervir e falar sobre sua angústia: “Eu vejo você e vejo o que você passou, estou muito angustiado com isso. Isso nunca deveria ter acontecido com você – isso é tão errado. Você não merecia nada disso. Você não merecia nada disso – é tudo culpa deles. Você é uma criança tão linda e adorável. Essa é a verdade aqui.” Novamente, esta é uma forma de reparentalização limitada (Rafaeli et al., 2011). Quando esse diálogo for concluído, a cadeira da criança traumatizada pode ser movida para o lado e paciente e terapeuta podem relatar e compartilhar sua experiência.

Diálogo 8 – Trabalhando com Impasses na Relação Terapêutica: “Flutuando Acima”

Um dos grandes presentes da terapia do esquema é seu profundo comprometimento com pacientes que têm graves conflitos de personalidade e/ou estruturas de modo complexas e rígidas. Diante disso, é de se esperar que rupturas e impasses na relação terapêutica façam parte da jornada e do processo de cura (Rafaeli et al., 2011; Safran & Kraus, 2015). Quando isso ocorre, a técnica “Flutuando Acima” de Roediger e colegas pode ser bastante útil (Roediger et al., 2018). Aqui, tanto o terapeuta quanto o paciente levantam-se de suas cadeiras e se visualizam sentados nas cadeiras abaixo. Eles podem então refletir sobre o impasse e sobre o que cada um não está conseguindo entender sobre o outro. Esta é uma forma de diminuir a intensidade da ativação emocional, mas também de aumentar a presença do adulto saudável tanto no paciente quanto no terapeuta. O objetivo desse diálogo é permitir que paciente e terapeuta consigam formar uma equipe e trabalhar juntos para descobrir estratégias para seguir em frente.

Considerações Finais 

A terapia do esquema é uma forma de psicoterapia muito eficaz. O trabalho com cadeiras, por sua vez, contribui para o poder de cura da terapia do esquema de três maneiras. Primeiro, ajuda a identificar claramente as partes ou os modos, externalizando e personificando as forças, muitas vezes conflitantes, ativas dentro dos indivíduos. Em segundo lugar, através da dimensão do espaço, facilita encontros entre os diferentes modos. Terceiro, a ativação neurobiológica que ocorre durante as vivências facilita a reestruturação cognitiva e a transformação do esquema (Kellogg, 2023; Pugh, 2019; Samoilov & Goldfried, 2000; Young et al., 2003). Quando usados em conjunto, eles criam um importante tratamento que pode ajudar e, esperançosamente, libertar aqueles que vivem em profunda dor e angústia emocional e psicológica.

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Translation by Rodrigo Trapp.

 

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